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sábado, 10 de maio de 2014

Dilema #2 - Top, bottom ou Switcher, o que diabos eu sou? Ou: Crise de identidade.


ATUALIZAÇÃO: Caso encontre algum termo desconhecido, recomendo a utilização do meu Glossário BDSM, que está dividido em 2 partes (vide links a seguir): Parte 1 e Parte 2.

Os iniciantes geralmente chegam sabendo muito bem o que querem ser. O problema é que, como diz o velho ditado: querer não é poder.

Cheguei certo de que era um Top (participante ativo). Antes de conseguir ir ao primeiro evento, eu tinha minhas dúvidas. Li um pouco, perguntei um pouco, coincidentemente naquela semana eu presenciei vários debates sobre o que define um Switcher ou não e... Caí no limbo existencial.
Minhas certezas, minha convicção de macho dominante, todo aquele lindo amontoado de orgulho... Foram debulhadas.
Foram tantas informações, tantas opiniões divergentes, convergentes – boa parte até mesmo tangente ao assunto – que eu me senti perdido. Justo no momento que bati o martelo e disse pra mim mesmo “finalmente me achei” –  justamente por achar que é legal estar, em alguns momentos, impossibilitado de esticar minhas mãos e tocar a mulher que está fazendo um strip-tease pra mim; ou então, de, em um dado momento em uma transa, simplesmente deitar e deixar que ela faça o que quiser – meu mundo caiu de novo.
Até que, finalmente, um evento! Ao chegar, vislumbro vários fetichistas de fora do BDSM e alguns Dominadores e Dominadoras. Passei as 4 ou 5 horas da festa praticamente em silencio total, observando, absorvendo, analisando, tentando compreender tudo aquilo.
Ao sair da festa, um ligeiro bate papo com algumas pessoas na padaria, muitos risos, piadinhas e uma sensação de reestruturação da minha condição de Dominador.
Mais tempo se passando, mais leituras e mais teoria, relembrando a festa, lembrando dos papos nos bares com outras pessoas de todos as “classes” BDSM-ísticas, mais reflexões sobre meu passado, minha experiências, minhas frustrações e, lentamente a certeza foi voltando. Sim, agora é definitivo: sou um Dominador.
Até que num dia, inesperadamente, a primeira sessão ocorreu. Ela, uma masoquista convicta - mas nem um pouco submissa fora da cama - retornando ao meio depois de alguns meses afastada; eu, um Dominador sádico convicto, mas ainda sem nenhuma experiência BDSM oficial (já fazia spanking com namoradas no baunilha desde... Bom, desde a primeira, creio eu). 
...
Ao término da sessão, ambos cansados, o êxtase provocado pelo que tinha acabado de acontecer ainda descarregando adrenalina e só então eu consegui prestar atenção no que estava sentindo. E isso me provocou uma epifania: Finalmente eu pude ser eu mesmo. Sem amarras sociais, sem medos excessivos. Mas veio com um “problema” para o qual eu finalmente abri os olhos: minha resistência à dor não é só resistência, é ligeiramente prazerosa. Em momentos específicos, um tipo de estímulo doloroso específico faz aflorar meus instintos mais basais, mais animais.
E lá estava ela de novo, a dúvida, reforçada por um comentário brincalhão insinuando que os arranhões q eu levei, ela mesma não suportaria.
O grande foco da dúvida não é a questão de saber do que gosto ou não, mas uma questão típica do ser humano: a vontade de classificar.
Graças a uma série de leituras a respeito das atribuições de “títulos” (desde debates acalorados no Facebook e no Fetlife a textos encontrados por acaso em momentos que não tive a mínima esperteza de salvá-los), a visão mais aceita, a definição menos controversa – e a que faz mais sentido – é a que diz que um mesmo indivíduo pode ser Dominador em uma relação D/s, ser Top nas práticas bondagistas, ser sádico e, ainda assim, ter prazer na dor. Escolha qualquer combinação quiser entre as muitas práticas, e todas elas serão possíveis.

Em um texto de um assunto BDSM, mas completamente destoante deste escopo, vislumbro 2 frases que resumem magnificamente essa eterna questão:

"Rótulos não significam realmente nada além do significado que nós damos a eles. Sempre converse e deixe claro o que seus termos significam, pois assim você terá certeza de que ambos ou todos vocês estarão o máximo possível na mesma página."
Morgan @ The Dominant Guide

Por hoje, é isso.
Ainda preciso de mais dados práticos (uma vez cientista, sempre cientista, rsrs – sou biólogo).
Por enquanto, minha definição continua como sádico, mas abrirei um parênteses mental incluindo um “talvez masoquista” praquela pessoa que, quem sabe um dia, venha merecer fazer o teste.


C y’all later!

Dilema #1 - Será que eu consigo?


ATUALIZAÇÃO: Caso encontre algum termo desconhecido, recomendo a utilização do meu Glossário BDSM, que está dividido em 2 partes (vide links a seguir): Parte 1 e Parte 2.

Como disse no outro texto, estava – e ainda estou – consideravelmente relutante em escrever, mas agora que dei início, sinto que devo relatar pelo menos o que tenho feito, passado e sofrido até agora durante estes primeiros passos no aprendizado da arte dual de Dominar.
Dual? Sim. Dominar é uma arte bruta, afinal bater, imobilizar, asfixiar, brigar, amarrar - e muitas vezes até mesmo levantar por uma corda – cortar, perfurar, aplicar choques, privar o outro de um – ou mais – sentido são práticas brutas. No entanto, cada uma delas, cada detalhe específico requer sutilezas. Um movimento fora de eixo pode transformar uma pancada perfeita em uma tragédia, uma amarração mal feita pode trazer problemas à circulação ou causar fraturas (em casos de suspensão), uma perfuração ou um corte mal feito então, nem precisam ser citados, um segundo a mais ou a menos pode transformar uma descarga de dopamina e endorfina por hipoxia (falta de oxigenação no cérebro) em um dano neurológico permanente, etc.
Um iniciante que se depara com as maravilhas fetichistas do mundo pornô não faz ideia de metade dos riscos citados aqui em cima (que, francamente, não são nem um começo de lista razoável quando se trata dos perigos). Até que, ao abrir as portas reais do BDSM, se depara com relatos, vídeos e sites que trazem – em sua minoria, devo admitir – a realidade. Aquele que disser que não se assustou no começo está mentindo ou tem alguma desordem psicológica. E isto traz o primeiro dilema: Será que eu consigo fazer essas coisas?
Sendo um dilema um problema com duas soluções controversas (ou mais soluções inaceitáveis), as respostas óbvias são “sim” ou “não” e suas consequências diretas são, respectivamente, “sigo em frente” ou “estou no caminho errado. Ou troco de lado ou desisto disso”.
Esta pergunta me levou a uma caminhada pelos caminhos obscuros e confusos da minha memória, pra responder às perguntas mais questionadas e respondidas no meio BDSM: “Há quanto tempo está no meio?” e “Como se descobriu?” (Se você está lendo isto, já respondeu a estas perguntas, no mínimo, uma vez. Provavelmente dezenas).
A resposta pra segunda pergunta vem automaticamente, conforme fui percorrendo estes meandros da memória e comecei a lembrar das experiências que, agora, já tenho uma boa noção de que fazem parte do BDSM – ainda que algumas sejam apenas um rascunho do futuro depravado, no bom sentido, claro, que eu me tornei [risos]. Aquela namoradinha que gostava mais de uns tapas, aquela outra que, por mais loucas que fossem minhas decisões, seguia e obedecia, aquela que, de supetão colocou minhas mãos no pescoço dela e pediu pra apertar, aqueles tradicionais momentos em que o casal resolve “esquentar as coisas” e alguém compra uma algema pra prender o outro, uma “mais doidinha” que gostava de ficar fazendo desenhos na própria pele com uma ponta de faca – que eu achava MEGA estranho até ela escrever as minhas iniciais – ou até mesmo aqueles momentos infantis onde você pega uma caneta aleatoriamente e resolve escrever “pertence à [próprio nome]” no corpo dela.
Ao me deparar com este tipo de lembranças, me dei conta de que sempre estive no controle da situação, tanto por ter me imposto quanto por ter recebido “de bandeja” as rédeas, e, ora bolas, cada uma destas experiências foi sendo agregada às anteriores, tornando o relacionamento seguinte mais complexo, visto que eu sentia falta do que não tinha mais e as ensinava e tentava impô-las pra nova namorada.
No entanto, ao investigar mais minuciosamente, percebi que em algumas situações, nem sempre era eu a parte “ativa” na prática, o que me levou ao segundo dilema: “Top, bottom ou Switcher, o que diabos eu sou?”, mas isso é história pra outro dia.

Até lá!

Motivos, algumas influencias, um breve olá!

ATUALIZAÇÃO: Caso encontre algum termo desconhecido, recomendo a utilização do meu Glossário BDSM, que está dividido em 2 partes (vide links a seguir): Parte 1 e Parte 2.

Olá, me chamo Gabriel, tenho 26 anos, como podem perceber pelo título do blog, sou um Dominador iniciante. Estou no BDSM oficialmente há cerca de 3 meses, tenho aproximadamente 1 ano de estudo sobre fetiches em geral, sendo os 3 últimos meses o período de estudo efetivo e proveitoso sobre o BDSM.

Estou há vários dias pensando e discutindo comigo mesmo e cheguei à conclusão que sim, vale a pena escrever meus pensamentos, minhas dúvidas e frustrações, enquanto iniciante no BDSM.
A prática de escrever em um diário, de anotar pensamentos, de organizá-los coerentemente em uma folha de papel era basicamente masculina e adulta, como forma de controle de viagens, relatos domésticos, controle financeiro, entre outros. Depois se tornou um hábito comum a ambos os sexos, reduzindo a idade inicial e, pelo menos até o meio da minha adolescência, ter um diário era coisa de menina em torno da puberdade.
No BDSM, a prática de escrever um diário, não mais físico, mas virtual, é, majoritariamente, feminina e submissa, geralmente requisitada - ou ordenada - pelo dono, como uma maneira de ter uma visão mais clara dos efeitos que está causando no seu objeto de dominação (um exemplo de material de leitura de excelente qualidade é o da minha amiga, a sub {Lucy}_de_Dom Daniel: http://diariosubmissa.blogspot.com.br/, ou apenas como uma forma de autoafirmação ou de divulgação de textos e poesias sobre o BDSM.
Este fato me deixou bastante relutante em dar início a isso. Devo acrescentar que a dúvida de continuidade também pesou bastante para que essa demora se prolongasse. No entanto, o que me convenceu a prosseguir, foi lembrar-me de um conselho há muito recebido, onde me foi dito que escrever os pensamentos ajuda a enxergá-los melhor. Posto assim parece uma coisa idiota e banal, mas até aceitar a funcionalidade... Ô! Lá se foi um bom tempo perdido. Recentemente fui entrevistado em um grupo do Facebook do qual faço parte e, no decorrer da entrevista, percebi que estava falando de mim não só para outras pessoas, mas estava contando pensamentos que tinha e que nem eu sabia.
Outro fator que sempre pesou bastante foi a falta de material BDSM em português. Os (ainda poucos) que, como eu, tem a sorte de ter aprendido outras línguas, adquirem uma clara vantagem no conhecimento do meio fetichista, já que o material de estudo é oriundo de lá.
Recentemente acabei esbarrando em um texto escrito pelo DomJupiter (cuja página é  http://bdsm.domjupiter.com/), que me fez pensar mais efusivamente sobre escrever. Junte isso com a busca pelo autoconhecimento, aliada à vontade de trazer o material de qualidade gringo para mais perto das pessoas daqui, e estes foram o que me fez resolver deixar a preguiça de lado e dar início a isso.
Não sei com qual periodicidade traduzirei artigos, páginas, capítulos, ou terei coragem de desnudar minha mente em relatos sobre minhas experiências.
Não pretendo que ninguém tome isto como certo, até pelo meu tempo irrisório de permanencia no meio, mas sim que tomem como uma oportunidade de reflexão e autodescoberta. Terei um prazer imenso em discutir pontos específicos, o texto inteiro, ou qualquer outro assunto, desde que de forma educada.
Espero que este material seja tão útil para quem se interessar por lê-lo quanto pra mim, que o estou escrevendo e me descobrindo a cada letra.

Até a próxima.